quinta-feira, maio 25, 2006

TIMOR LOROSAE

OH! LIBERDADE!

Se eu pudesse
pelas frias manhãs
acordar tiritando
fustigado pela ventania
que me abre a cortina do céu
e ver, do cimo dos meus montes,
o quadro roxo,
de um perturbado nascer do sol
a leste de Timor

Se eu pudesse
pelos tórridos sóis
cavalgar embevecido
de encontro a mim mesmo
nas serenas planícies do capim
e sentir o cheiro de animais
bebendo das nascentes
que murmurariam no ar
lendas de Timor

Se eu pudesse
pelas tardes de calma
sentir o cansaço
da natureza sensual
espreguiçando-se no seu suor
e ouvir contar as canseiras
sob os risos
das crianças nuas e descalças
de todo o Timor

Se eu pudesse
ao entardecer das ondas
caminhar pela areia
entregue a mim mesmo
no enlevo molhado da brisa
e tocar a imensidão do mar
num sopro da alma
que permita meditar o futuro
da ilha de Timor

Se eu pudesse
ao cantar dos grilos
falar para a lua
pelas janelas da noite
e contar-lhes romances do povo
a união inviolável dos corpos
para criar filhos
e ensinar-lhes a crescer e a amar
a Pátria Timor!


Xanana Gusmão
Cadeia de Cipinang - 8 de Outubro de 1995.


Na esperança de que o povo timorense saiba reencontrar o caminho da paz e da harmonia.
porque os ultimos acontecimentos não podem fazer perigar a luta de um povo, e fazer cair por terra todas as esperanças criadas durante anos à custa de lágrimas,morte, sangue e dor.
Porque a luta pela liberdade e pela paz ocorre também nos caminhos da escrita e da palavra, deixo-vos este poema de xanana gusmão,presidente de timor lorosae, poeta, pintor e acima de tudo o obreiro da liberdade e da independência de timor.
Força XANANA. Pela tua nação,pela paz, e pelo sonho revolucionário que é ousar ser livre .

VIVA TIMOR LOROSAE

sábado, maio 20, 2006

A beleza... para os que ainda vem cá

"A beleza é triste pois ela está no lugar de algo que se foi. O tempo perdido não pode ser recuperado. Sua beleza só pode ser vivida como ausência: a beleza dói... Magia é isto: invocar o que se foi, mas que continua a nos habitar. Ou será poesia?"
Rubem Alves

Porque apesar de alguns acharem que escrever é uma dádiva e é tão facil como se não sentisse, as vezes sinto as palavras que escrevo cravarem-se como punhais no meu próprio peito.

porque cada poema é um pedaço de mim que arranco, uma cicatriz que me vem do fundo da alma. Uma cruz que marca os dias... talvez vestigios de alguem que se amou e se perdeu.
deixo-vos esta homenagem aos poetas loucos que como eu se entregam e se dissolvem aos poucos em palavras

quarta-feira, maio 17, 2006

ainda al berto...

Um texto de al berto que roubei de um commment que a rita colocou... talvez porque todos precisamos de viajar, de sentir pulsar em nós a ansia do infinito, a fuga de todas as grilhetas.

com uma homenagem especial a alguém que é uma viajante com tudo de bom o que ser viajante pode ter, uma pessoa que aceita os outros como são, na sua variedade, na sua especificidade e a quem posso chamar cidadá do mundo pois tem como patria a luz que lhe mora no coração...
simplesmente porque suponho que essa pessoa vá gostar e queria que ela soubesse que está no meu pensamento nesta fase particular da sua vida.

(...)Um dia li num livro:«Viajar cura a melancolia». Creio que, na altura, acreditei no que lia.

"Viajar, se não cura a melancolia, pelo menos purifica. Afasta o espirito do que é supérfluo e inútil; e o corpo reencontra a harmonia perdida - entre o homem e a terra. O viajante aprendeu, assim, a cantar a terra, a noite e a luz (...) Aprendeu a nomear o mundo.
Separou com uma linha de água o que nele havia de sedentário daquilo que era nómada; sabe que o homem não foi feito para ficar quieto. A sedentarização empobrece-o, seca-lhe o sangue, mata-lhe a alma - estagna o pensamento.
Por tudo isto, o viajante escolheu o lado nómada da linha de água.
Vive ali, e canta - sabendo que a sua vida não terá sido um abismo, se conseguir que o seu canto, ou estilhaços dele, o una de novo ao Universo(...)

Obrigado a todos os que vem cá e em particular a cat por merecer este post e à rita por ter partilhado comigo este texto, este pedaço de luz.
Rapidas melhoras jorge a cat.
abraço

sexta-feira, maio 12, 2006

Confissão

há uma coisa que quero partilhar com vocês, e sobre a qual tenho reflectido nos últimos tempos, que tem a ver com a interrogação sobre qual será a verdadeira razão do amor, a verdadeira razão de amarmos?
A minha duvida é simplesmente esta... Porque será que continuamos a amar mesmo que o amor nos tenha feito sofrer, uma ,duas, três vezes, teremos em nós algo de destrutivo, será o amor vida e morte, açucar e fel, luz e penumbra, algodão e lamina?
será que existe um amor perfeito à nossa espera capaz de curar as desilusões amorosas, consertar os desenganos? será que para se chegar a esse alguém é preciso sofrer, como se esse sofrimento fosse condição essencial da perfeição? Ou será que as coisas do coração são simplesmente jogos em que uns ganham e outros perdem, como actores de um enredo sem sentido?
Em conversa com uns amigos em que falava disto veio-me a cabeça a seguinte ideia mais ou menos alucinada...

se deus, acreditando que ele existe, nos fez há sua imagem e semelhança, ( e como tal se ele é perfeito, nós também temos potencialmente tudo para o ser), amar é simplesmente um acto de loucura, pois não é mais do que resignadamente ou não, nos amputarmos dessa perfeição, aceitarmos ser incompletos, para depositar essa qualquer coisa noutro alguém que nos completa ao ponto de valer a própria vida, a própria alma, a própria busca da luz, numa atitude que nos torna tão deliciosamente perfeitos.

pessoalmente sinto-me contente por ser louco, por ser imperfeito, mesmo que as vezes, sobretudo porque sei a raiz da minha imperfeição, aquela parte de mim que está ausente ,e faça sentir tenebrosamente incompleto.

Para os loucos (ou pelo menos para aqueles que se atrevem) fica o consolo deixado pela seguinte fraze de Nietzche "Há sempre alguma loucura no amor. Mas há sempre um pouco de razão na loucura "

que a razaõ e sobretudo o amor esteja convosco . BOM FIM DE SEMANA

quinta-feira, maio 11, 2006

era uma vez

Era uma vez
Era uma vez um menino
Era uma vez um menino que olhava
Era uma vez um menino que olhava o mar
Era uma vez um menino que olhava o mar e via
Era uma vez um menino que olhava o mar e via nas ondas
Era uma vez um menino que olhava o mar e via nas ondas destinos por alcançar
Era uma vez um menino que olhava o mar e via na ondas destinos por alcançar e sonhava
Era uma vez um menino que olhava o mar e via nas ondas destinos por alcançar e sonhava com novos mundos
Era uma vez um menino que olhava o mar e via nas ondas destinos por alcançar e sonhava com novos mundos quer descobria em caravelas feitas de letras,
Era uma vez uma vez um menino que sonhava que um menino que olhava o mar e via nas ondas destinos por alcançar e sonhava com novos mundos quer descobria em caravelas feitas de letras, de palavras e de sonhos...
Era uma vez um menino que sonhava com outro menino,
Era uma vez um menino que sonhava
Era uma vez um menino
Era uma vez
... um sonho .

terça-feira, maio 09, 2006

PARA... TI

Porque a lua brota dos teus olhos da forma mais bela que já vi e acende os sonhos, acende a vida.
Porque o teu sorriso imenso é meigo e quente e sabe ser coberta e aconchego de todas as dores.
Porque a tua alma transparece de uma forma bela nas palavras que dizes, nos sonhos que contas, em tudo aquilo de belo que dás de ti.
Porque dás tanto... tanto... lua, carinho, vida, luz,... amizade... essencia.... aconchego, sonho, sopro, poiso, ninho, céu....
Porque és essencia... toda a essencia.... toda a poesia...
tanta poesia que as palavras se constrangem, se tornam mormúrios para te descrever...
mas acima de tudo... porque és tu...
Porque fazes anos hoje....
Porque não encontrei outra forma...
de te dar os PARABÉNS...
e de te agradecer por toda a cor que tens dado aos meus dias

segunda-feira, maio 08, 2006

boa semana

deixo-vos um poema do grande AL BERTO, poeta que como ninguem conta a vida com as suas dores, com a sua essencia, com a sua insustentavel leveza...
escolhi este poema porque hoje me sinto a remendar o pano das minhas velas... como se também eu estivesse à espera do regresso da luz.



Há-de flutuar uma cidade


Há-de flutuar uma cidade no crepúsculo da vida
pensava eu... como seriam felizes as mulheres
à beira mar debruçadas para a luz caiada
remendando o pano das velas espiando o mar
e a longitude do amor embarcado

por vezes
uma gaivota pousava nas águas
outras era o sol que cegava
e um dardo de sangue alastrava pelo linho da noite
os dias lentíssimos... sem ninguém

e nunca me disseram o nome daquele oceano
esperei sentada à porta... dantes escrevia cartas
punha-me a olhar a risca de mar ao fundo da rua
assim envelheci... acreditando que algum homem ao passar
com a minha solidão

(anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me uma pérola no
coração. mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar.)


um dia houve
que nunca mais avistei cidades crepusculares
e os barcos deixaram de fazer escala à minha porta
inclino-me de novo para o pano deste século
recomeço a bordar ou a dormir
tanto faz
sempre tive dúvidas que alguma vez me visite a felicidade


Al berto

sexta-feira, maio 05, 2006

Coisas que percebi hoje... bom fim de semana

Hoje acordei com um espirito positivo, lavei da alma a sensação de perda que tinha, as dores de que padecia.
No fundo elas não faziam sentido, não perdi ninguem, esse alguem está comigo.... estará comigo sempre.
Irá receber o melhor que a vida me deu e ensinou a dar... a AMIZADE.
Depois quando se é realmente amigo e se partilha a alma, como eu e esse alguem nos habituamos a fazer ao longo de tanto tempo, a distancia entre o amor utopico e a amizade esbatem-se, da-se a vida pela pessoa, sonha-se com a pessoa, vive-se com fragmentos da pessoa na alma, não importa o nome que lhe damos, o armário que ocupa no coração, o que importa é A ENTREGA.

Disse que acordei bem não só por isso, e sim isso foi o que fez desfazer-se-me a dor que me moia,mas porque percebi algo que ignorava há uns tempos, algo que é no fundo a minha maior qualidade, o meu talvez quase destino.

- O que eu sou realmente bom a fazer é ajudar os outros.

Ontem soube-o não só no trabalho, não só porque ajudei duas grandes amigas, mas acima de tudo porque percebi que as vezes mesmo com um desconhecido na rua se pode fazer a diferença, ainda mais quando à nossa volta os outros estão mais cegos de si próprios e se sentem mais vazios.
Não estou com isto a gabar-me, vocés que me leem e já são meus amigos sabem que não me gabo disso, só queria partilhar com vocés o quanto esta convicção me está a harmonizar a minha relação com o destino.. só queria reafirmar-vos o meu compromisso de estar onde for preciso,quando for preciso,pronto a ACREDITAR.


Porque falei no destino deixo-vos um fado que tem muito a haver comigo e que as vezes me faz pensar que como diz a grande Carla no blog dela, "as vezes me apetece não pensar e deixar-me ir ao sabor do vento".

BEM AJAM PELO VOSSO SORRISO, A VOSSA ALMA... A VOSSA LUZ... OBRIGADO AQUELE ALGUÉM POR ESTAR PRESENTE, POR SER POEMA, COMPANHIA, LUZ AMIGA.


BOM FIM DE SEMANA


- FADO DE CADA CADA UM

Letra: Silva Tavares
Música: Frederico de Freitas


Bem pensado
Todos temos nosso fado
E quem nasce mal fadado
melhor fado não terá

Fado é sorte
E do berço até á morte
Niguem foge por mais forte
Ao destino que Deus dá

Meu fado amargurado
A sina minha bem clara
se revelou,
Pois cantando
seja quem for adivinha
na minha voz soluçando
que eu finjo ser quem não sou

Bem pensado
Todos temos nosso fado
E quem nasce mal fadado
melhor fado não terá

Fado é sorte
E do berço até á morte
Ninguém foge por mais forte
Ao destino que Deus dá

Tal seria poder um dia
trocar-se o fado
por outro fado qualquer
Mas agente ...
já tem o fado marcado
E nenhum mais inclemente
do que esse de seres mulher

Bem pensado
Todos temos nosso fado
E quem nasce mal fadado
melhor fado não terá

Fado é sorte
E do berço até á morte
Ninguém foge por mais forte
Ao destino que Deus dá

quarta-feira, maio 03, 2006

a propósito da peça azul a cores.. ou talvez não...

FICHA TÉCNICA

Produção:Teatro da trindade, Inatel/ projecto Mundo Perfeito
Texto:Filipe Homem Fonseca
Concepção cénica e interpretação: Margarida Cardeal e Tiago Rodrigues

A minha Opinião:

uma peça a não perder, um texto a não perder, a prova provada que amar dói, que a ausência do amor dói, que o amor as vezes se desgasta e nos gasta a nós.
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Porque me fascinaram duas frases desta peça, porque tem muito a ver comigo reproduzo-as aqui na integra.

“Sabes aquilo que se diz, a cara-metade? A minha cara-metade? E se a pessoa que nos completa é mais do que a nossa metade? Se sem ela somos um terço, ou um quarto, ou menos? E se a nossa cara-metade for bastante mais que a nossa metade? Se for demais para nós? E se em vez de nos acrescentar, ela nos tira?”

“ Deus deu-nos um dom. o dom de magoarmos aqueles de quem mais gostamos, porque mais cedo ou mais tarde aqueles de quem mais gostamos acabarão por nos desiludir, então temos de ser capazes de magoa-los para não sofrer”


In Azul a cores



Porqué esta dor... esta ausência...
porqué este caos sem ordem, este espinho na alma...

Hoje espero apenas..
...Que o (des)amor sare um dia. que o coração possa ter aconchego ou possamos viver sem coração,
...Que um dia a palavra finalmente dita tenha eco, que o silencio não seja tão profundo, a ausência tão imensa.
...Que um dia volte a haver céu e volte a fazer sentido voar.

Por agora há apenas um rio, qualquer de torrentes que brotam na minha alma, por agora há apenas o não querer ser... o vácuo, o ar...

Por favor extingam-me as palavras do fogo que arde em mim, extingam-me o meu bem querer.

sexta-feira, abril 28, 2006

amar .. por carlos drumond de andrade

Que pode uma criatura senão,

entre criaturas, amar?

Amar e esquecer,

amar e mal-amar,

amar, desamar, amar?

Sempre, e até de olhos vidrados, amar?



Que pode, pergunto, o ser amoroso,

sozinho, em rotação universal, senão

rodar também, e amar?

Amar o que o mar traz à praia,

e o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,

é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?



Amar solenemente as palmas do deserto,

o que é entrega ou adoração expectante,

e amar o inóspito, o áspero,

um vaso sem flor, um chão de ferro,

e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.



Este o nosso destino: amor sem conta,

distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,

doação ilimitada a uma completa ingratidão,

e na concha vazia do amor a procura medrosa,

paciente, de mais e mais amor.



Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa

amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.



CARLOS DRUMOND DE ANDRADE

segunda-feira, abril 24, 2006

O amor

Para aqueles que amam...

Para os que sonham e vibram com a vibração que só esse sentimento dá.

Para os que trazem alguém na alma, memórias de alguém, da essencia de alguém, do cheiro de alguém, do viver de alguém, cicatrizes da presença do corpo de alguém deixadas na cama, no corpo, ante e além da pele , vestigios da partilha dos sonhos de alguém, mais ou menos presentes, chagas doces mais ou menos profundas e saradas.

Para aqueles que amam e são correspondidos. Porque ainda acreditam, porque apregoam o amor aos sete ventos, porque beijam, porque se dão, porque se embalam a dois no marasmo dos dias, porque se entregam.

Para aqueles que amam, mesmo sem terem coragem de dizer, porque sonham, porque se projectam, porque choram, porque suspiram, porque sentem, porque sabem o quanto vale um beijo o quanto ele é bom, e sabem o quanto custa sentir que o beijo fica por dar, o quanto custa ter a palavra amo-te a flor da pele sem que ela alcance os dias e mesmo assim se atrevem a estar lá, a serem fies a pessoa amada, e mesmo assim sonham com ela e davam a vida por ela.

Para aqueles que amaram e sofreram tanto que já não querem amar... porque uns e outros fomos todos pelo menos uma vez na vida parceiros nessa dor... na esperança de que num virar de esquina qualquer reencontrem de novo a luz.

Para os que nunca amaram, porque não foram, não são capazes de descrever este ganho que é vida, que é grito, que é essencia que é sorriso, que é também perda, suplica, desespero, lágrima... vida, quer essa vida nos escape ou não por entre os dedos... simplesmente porque nunca foram capazes de se deixar dar, deixar-se morrer aos poucos, para renascer em algo mais forte mais intenso... esperando que nunca venham a sentir a dor da ausência, a dor que é não saber o que é adormecer ao lado de alguém, tomar banho com alguém, chorar no ombro de alguém.

Para os que gozam com o amor que lhes é dado, para os que o usam, para os que traem, para os que pisam...temendo que a vida um dia se revolte contra eles e experimentem o mesmo remédio.


Para mim, que sei o que quero, que sei o que sinto, que sei quem amo, que o demonstro em tantas formas, que escrevo o amor, que sou dilacerado por ele, que sei o que perco por não beijar, mas que não consigo dizer a pessoa amada que o faço simplesmente porque as palavars já estão gastas.


... Deixo-vos um poema de Florbela Espanca... talvez o mais belo poema que conheço sobre o AMOR.




Amar!
Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: aqui... além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente...
Amar! Amar! E não amar ninguém!
Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!
Há uma primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!
E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...
Florbela Espanca

sexta-feira, abril 21, 2006

Bom fim de semana

«Descobri que o principezinho estava cheio de sono, peguei-lhe ao colo e recomecei a andar. Eu ia comovido, parecia-me até que não havia nada mais frágil a face da terra. Contemplava, à luz do luar, aquele rosto pálido, aqueles olhos fechados, aquelas mechas de cabelo a tremer ao vento e pensava: “ O que eu estou a ver não passava de uma capa. O mais importante é invisível....”
Desenhara-se-lhe um vago sorriso nos lábios entreabertos e eu pensei “o que me comove tanto neste principezinho adormecido é a sua fidelidade a uma flor, é a imagem de uma rosa que, mesmo quando ele dorme, brilha lá dentro como a chama de uma vela.” E ele pareceu-me ainda mais frágil. Porque, às velas, é preciso protege-las: mal lhes dá o vento apagam-se. »
Antoine Saint-exupéry in O principezinho

Espero que a vela de luz que mora nas vossas almas se mantenha sempre acesa e que possam ser sempre fiéis as vossas rosas, aos vossos sonhos.
Acima de tudo espero que na vida nos possamos ir conhecendo melhor, uns aos outros e nós mesmos, para que possamos ir cruzando as nossas fragilidades e assim ir tendo coragem para suportar.

quinta-feira, abril 20, 2006

Homenagem a Samuel Beckett

Hoje deixo-vos dois textos de Beckett
Porque passaram 100 anos e alguns dias desde o seu nascimento.
Porque poucos sabem dizer tão bem como ele a vida e o sonho e sabem, tecer a vida levando-a das letras ao palco.
Porque o meu encenador e amigo joão lázaro ofereceu o "à espera de Godot" ao meu também grande amigo Fernado e como um e outro tem bom gosto, tive vontade de reler beckett.
Porque...simplesmente porque gosto.

"As lágrimas do mundo são inalteráveis.
Para cada um que começa a chorar, em algum lugar outro pára.
O mesmo vale para o riso...»

In à espera de Godod


É o Fim que Confere o Significado às Palavras.
Apenas as palavras quebram o silêncio, todos os outros sons cessaram. Se eu estivesse silencioso, não ouviria nada. Mas se eu me mantivesse silencioso, os outros sons recomeçariam, aqueles a que as palavras me tornaram surdo, ou que realmente cessaram. Mas estou silencioso, por vezes acontece, não, nunca, nem um segundo. Também choro sem interrupção. É um fluxo incessante de palavras e lágrimas. Sem pausa para reflexão. Mas falo mais baixo, cada ano um pouco mais baixo. Talvez. Também mais lentamente, cada ano um pouco mais lentamente. Talvez. É-me difícil avaliar. Se assim fosse, as pausas seriam mais longas, entre as palavras, as frases, as sílabas, as lágrimas, confundo-as, palavras e lágrimas, as minhas palavras são as minhas lágrimas, os meus olhos a minha boca. E eu deveria ouvir, em cada pequena pausa, se é o silêncio que eu digo quando digo que apenas as palavras o quebram. Mas nada disso, não é assim que acontece, é sempre o mesmo murmúrio, fluindo ininterruptamente, como uma única palavra infindável e, por isso, sem significado, porque é o fim que confere o significado às palavras. "

in 'Textos para Nada'


espero que estes textos vos agradem tanto como a mim.
PARABENS BECKETT....

segunda-feira, abril 17, 2006

sentir... talvez ainda a propósito das flores

Os sentimentos
São como as flores
Precisam conhecer
a luz do dia

se isso não acontecer
existirão para sempre
mas ficarão aprisionados
em vitrines ou estantes

serão muito mais belos,
puros e verdadeiros
mas nunca .... nunca
criarão raízes

sexta-feira, abril 14, 2006

boa páscoa amigos






















que o sonho vos ilumine sempre .

quinta-feira, abril 13, 2006

coisas que pensei hoje....

Há coisas que acontecem assim, ontem deitei-me com uma luz no coração e sem saber porque passei a noite em claro, deixei-me sem motivo de maior, sem qualquer razão especial para tal, observar a noite e o nascer do dia pelas friestas da persiana que me tinha esquecido de fechar,.
Fiquei quedo e deitado a ver as cores que iam surgindo pelos buraquinhos da persiana, os laivos de luz que invadiam o tecto de quando e que se prolongavam depois para dentro da porta entreaberta do armário do meu quarto, como se buscassem refúgio.
Confesso-vos que na cama me deixei viajar pela interrogação de quem seriam as pessoas que passavam na rua aquela hora da noite, confesso-vos que em alguns casos imaginei enredos secretos, mesmo proibidos, vidas misteriosas como só podem ser as vidas de quem anda na estrada as 3 ou 4 da manhã, imaginei para onde iriam, se teriam alguém à espera, se quando regressassem, onde quer que fossem, iriam sentir-se em casa, se poderiam ao contrário de mim sentirem-se num porto de abrigo e abraçarem o legado de orfeu.
Mais tarde fui-me apercebendo do clarear do dia, do toque laranja do sol e da forma como pouco a pouco o céu ia ficando azul e fui libertando os meus ouvidos ao ponto de testemunhar o cantar de um velho galo das redondezas e de sonhar dançar ao som do chilrear dos pássaros.
Depois e porque o trabalho não perdoa as noites mal dormidas levantei-me da cama e sai à rua com uma vontade de pisar suavemente cada pedrinha da estrada, como se as quisesse saudar... e fi-lo como se percorresse aquele espaço pela primeira vez, como se não fosse uma rotina diária, estática, amorfa.
No trabalho, antes da porta abrir dei por mim a pensar em algumas frases que o Miguel do teato diz na peça por um tempo ainda, e atrevi-me a brincar com elas, com a ajuda da transcrição que a Catarina fez para o blog dela, numa brincadeira que originou o texto que se segue... pois a brincar a brincar, aprende-se a dizer tudo...




Porque quer queiramos quer não no dia a dia .... “ Atravessámos paisagens de interesse desigual, aturámos enxames de pessoas e, entre risos e lagrimas e cantos e silêncios, rastejámos por esse tubo de ensaio, o Universo, que um velho louco ou sábio ou distraído, mas seguramente bastante decrépito, empunha, em suas mãos tremulas, descarnadas”.
Talvez porque as vezes achamos os outros autómatos “ porque eles teimam em agarrarem o tempo e não abrem as mãos, deixando a areia correr, livre, livremente, por entre os dedos” mas acabamos por descobrir que somos tão autómatos como eles.
A vida ensinou-me que “é sempre bom desconfiarmos das palavras” e que “para ganhar pode ser preciso perder tudo...Pois não terá ido mais longe aquele que tudo perdeu?” e não será o nada a libertação suprema para podermos abraçar tudo ???
Porque invariavelmente “a história incita-nos a esperar diariamente o impossível agarra-lo pelas orelhas, é o nosso privilégio” .
Descobri que “nos jogos de Amor, ganha aquele que for mais longe” pelo que tenho de começar a deixar os sentimentos vir a luz do dia até porque “ é sempre bom abraçar alguém” mesmo que “seja da natureza dos encontros serem breves” .
Cheguei a conclusão que é tempo de arriscar o tudo, pois mesmo que o dia seja mau e “nas ruas corra um vento agreste. Às vezes faz calor”, e com o calor, há sempre um sopro de esperança, simplesmente porque “ quem sabe .... Pode ser primavera”

domingo, abril 09, 2006

voltei

porque a catarina e o lorenzo me mostraram o quanto este espaço é importante para mim...
porque sei que a tania, a rita, a py, a mauy, o bruno e a carla vão gostar.
porque a sónia está sempre do meu lado e me conhece melhor do que eu.
porque este silencio me estava a deixar infeliz
porque ainda há esperança de chegar a luz.
ou porque precisava apenas de gritar...
deixo-vos um poema de eudoro augusto chamado luna de lupe.
bem ajam


Quero mais não.
Estou meio over de emoção.
Estou sem aquilo que chamam estrutura
pra amortecer esta aflição,
esta fissura.
Meu corpo é um barco sonolento
e falta vento
pra me levar a outra ilha.
Outra razão, outro delírio,
outro luar de vampiroà procura de um irmão.
Pode parar:
a noite é escura.
Não quero o copo de água pura
que você bebe em minha turva solidão.
Quero mais não.
Hoje me sobra emoção.
Sobra verdade, falta força, sobra sangue.
Hoje eu vou dormir no mangue
que outros chamam coração.
Pode parar.Virou bocejo, era tesão.
Você jamais deu boa vida ao meu desejo,
foi pouco sim pra muito não.
E agora chega.
Deixa rolar mas nunca esqueça
de virar minha cabeça:
eu amo sempre
o lado errado da paixão.


In: AUGUSTO, Eudoro. O desejo e o deserto. São Paulo: Massao Ohno, 1989. Poema integrante da série Ventura.

terça-feira, março 28, 2006

Até breve.

Talvez porque ando a sentir demais
Talvez porque as palavras se esgotaram
Talvez porque há um sopro qualquer de vento que me leva a outras paragens
Talvez por estar cansado de escrever a vida a passar-me perante os dedos
Talvez por já não conseguir dizer que acredito,
Takvez por já não conseguir gritar
E não fazer qualquer sentido continuar a dizer aqui o que não consigo dizer cara a cara, alma na alma,
E já não conseguir brincar ao jogo do poeta que não sou, pois já não sei se vivo, pois já não sei se luto...
É tempo de deixar de postar por uns tempos, tempo de quem sabe dar voz aos silêncios, tempo de explorar outras formas de ser e de dar... porque preciso de regressar à intimidade, conter e redefinir as palavras, rescrever os sonhos...
Não se trata de um adeus a este espaço... trata-se umas férias sem tempo determinado, o tempo necessário para fazer aquela viagem sentimental que só eu posso fazer por mim próprio, o tempo necessário quem sabe para que um turpor qualquer de vida me ajude a explicar quem sou, o que quero, o que amo...
Prometo voltar logo que me sentir mais forte mais vivo, mais recriado, hei-de voltar, porque nunca direi que não aos sonhos, agora só não tenho força para sonha-los assim...sonha-los aqui.
Mas acima de tudo hei-de voltar pois sei que dos vossos dias nasce a luz e eu hei-de escrever essa luz, enquanto na minha alma pulsar qualquer coisas que não sei o que é mas me leva a ter sede de estar vivo.
Agradeço a todos os que fazem e fizeram parte deste meu mundo nestes meses, a todos os que se deram e iluminaram este espaço do mesmo modo que iluminaram a minha vida e estou certo que redescobriremos outra forma qualquer de comunicar e de estar próximos, pois afinal fazem parte dos meus dias.
Deixo-vos um poema que escrevi num tempo em que quis deixar a escrita... talvez porque no fundo o que senti nessa altura seja muito semelhante ao que sinto agora...

Bem ajam.



Poema só para mim ... ou o último
dos poemas


este é o poema só para mim
só para mim...
não por egoísmo...
não por injustiça
nem por ódio
não por nenhuma das palavras
que definem atitudes
vás e estúpidas
que toda a gente toma
ao proibir
ao interdir
ao censurar ...
tudo e todos....
como se tudo fosse material
para testar,
testar,
testar ...
e eles senhores
de toda a razão que há no mundo
este é o poema só para mim
simplesmente porque em cada letra
estão pedaços desgostosos
desta mágoa de sal que aqui vomito
como se a cada traço ...
fosse libertar todo o ódio
fosse desfraldar
a bandeira negra do inferno
como se revela-se
a morte anunciada do poeta
que há em mim...
perdi ...morri
acabou tudo,
a partir do instante ...
em que da minha memória
se dissipou a recordação
da doçura de um olhar ,
da ternura e um abraço ....
do sorriso dos desejos
de alucinar...alucinar.
deixei de ser poeta
a partir do momento
em que já não consigo vislumbrar
a sensação de beijar alguém
com amor...só com amor
como se dos seus lábios ....
palpitassem mil estrelas
ardentes de paixão
a partir do instante
em que me apercebi
que esta vida me escapa
por entre os dedos que entrelaço
...no vazio em que estou
no vazio que me leva a dizer...
que este é o último dos poemas
pois eu sou o último dos temas que
tratei ...
e do qual só tinha jurado falar...
quando todo o amor...
toda a caricia ...
se dissipassem da minha mente
quando toda a luz...
se tivesse esgotado da memória do meu
ser ...
e eu me visse obrigado a enterrar este
poeta
pois o meu mundo acabou ...
e sem nada do tudo que falei
resta-me apenas falar de mim ...
eu que sou ninguém.

sexta-feira, março 24, 2006

para quem ousa

deixo-vos um texto de Martin Luther King.
Uma homenagem a todos os que lutam pelo sonho.
para que os vossos sonhos nunca esmoreçam.
bem ajam

«..É melhor tentar, ao invés de sentar-se e nada fazer; é melhor falhar, mas não deixar a vida passar ; Eu prefiro caminhar à chuva do que esconder-me em casa em dias tristes; prefiro ser feliz, embora louco do que viver infeliz em são conformismo... »

M. Luther King

terça-feira, março 21, 2006

silencio

Aqui fica um texto de Clarice Lispector sobre aquela coisa maravilhosa que é o silencio. Porque é no saber ouvir os silencios que reside a verdadeira arte de comunicar... a promessa de todos os sonhos.
Com um agradecimento a quem sabe entender os meus silencios.



"
Entre duas notas de musica existe uma nota,
entre dois fatos existe um fato,
entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam
existe um intervalo de espaço,
existe um sentir que é entre o sentir...
que é a respiração do mundo,
e a respiração contínua do mundo
é aquilo que ouvimos
e chamamos de silêncio"

Clarice Lispector