sexta-feira, julho 30, 2010

António Feio




Aproveitem a vida e ajudem-se uns aos outros. Apreciem cada momento. Agradeçam, e não deixem nada por dizer; nada por fazer”.

António Feio in Contra Luz


Hoje fiquei com a alma presa à garganta, presa na flor de todos os sentidos, sem aforismos, sem nada conseguir dizer, com tanta coisa para te dizer ainda que não te tenha conhecido.
Ainda que além da magia com que nos conquistaste no palco, só tenha de ti, as recordações da tua juventude, dadas por alguém que conviveu contigo ainda que remotamente, com a lembrança de alguém que, ainda jovem, em Lourenço Marques, era capaz de saltar de um navio atrás do chapéu de uma professora levado pelos ventos.
Partiste dos palcos da terra para outros palcos maiores...
e já nos fazes falta sabes...
já sentimos falta do teu brilho, falta da tua essência, falta do teu humor e da tua garra ... mesmo à beira do fim.
Como vamos nós mostrar-te que aprendemos a tua lição.
Como vamos testemunhar-te que o fizemos...
Mais um vez só o silencio resta... o silencio em tua honra... com todas as pancadas de moliere dadas no coração e um magnifico obrigado pelo exemplo que nos deste.
bem hajas

segunda-feira, junho 14, 2010

epistula finita

e amanha o céu deixará de ser azul...
e o breu será a cor negra do destino que nos percorre a alma..
e amanhã deixarão de haver poetas ...
e negro será o vazio das páginas da vida que ficaram por escrever...

eu nunca quis isto,
ter de escrever a vida como se a vivesse sem o fazer...
ter de escrever a solidão que oculta os sentidos...
esta página qualquer de alma arrancada de mim.

sexta-feira, junho 11, 2010

Escrevo sobre a vida no papel

Ou melhor escrevo sobre a minha visão da vida….

Sobre a visão que tenho do meu mundo, com toda a consciência do quão limitada é a visão das minhas vivencias perante a imensidão dos sentimentos e a grandiosidade desta mãe terra que é a nossa.

Escrevo sobre o que sinto, o que sou, sobre o que tenho e o que não tenho, sobre o que dou e o que recebo, sobre o que recebi e não soube retribuir, sobre o que dei e não cheguei a receber…

Escrevo sobre o que fiz e o que não fiz, sobre o que fiz e não devia ter feito, sobre o que devia ter feito e não consegui, escrevo mesmo sobre aquela meta adiada e adiada que sempre quis alcançar e nunca consigo. …Escrevo talvez porque não consigo

Escrevo sobre as vezes em que amei e disse presente mas também sobre as vezes em que amei e não soube dizer, sobre as vezes em que a palavra amor foi grito aos sete ventos, mas também sobre as vezes em que cada letra ficou remordida e remordida nos lábios de uma forma tão profunda que nem sequer o mais arguto dos murmúrios soube encontrar.

Escrevo sobre tudo, do infinito ao ínfimo, da luz à escuridão, do corpo à essência, das grandes causas ao nada… dos nadas aos grandes sonhos… Escrevo muitas vezes pequenos nadas que são tudo.

Escrevo às vezes para lembrar, às vezes para esquecer, às vezes por querer ficar, às vezes por querer partir, às vezes porque vivo, outras porque não vivo, às vezes porque conto, as vezes porque resto.

Escrevo acima de tudo porque me dou, nos meus poemas, neste blog, nas minhas mensagens de telemóvel, numa folha qualquer escondida dentro de um jornal, deixado ao acaso para que alguém anónimo a encontre.

Escreverei um dia nas paredes num sopro de liberdade…

ESCREVO PORQUE EXISTO….

Mesmo limitado, na minha forma (im)perfeita de ser e de me dar…

Mesmo sabendo que caio tantas vezes no ridículo…

Mesmo sabendo que estou tantas vezes isolado....

Mesmo sabendo que para muitos a escrita não é nem nunca será mais do que uma figura de estilo indiferente aos sonhos…

Mesmo não conseguindo entender como pode ser “belo” erguermos a mão contra o vazio, sabendo que ninguém a alcança.

Escrevo agora na esperança de que me leias …

Porque sei que me vais ler, sobretudo para te pedir desculpa do exagero na forma de te buscar,

Pela minha não forma de saber lidar com o tempo e a distancia…

Por não saber o sabor da ausência

Por não estar presente de outra forma…

Por não conseguir ser apenas poema escrito no papel atirado aos ventos à espera dos sonhos

Por não ser uma melhor maça, metade arrancada de mim para te entregar

Bem hajas

quarta-feira, junho 09, 2010

Anjos de uma asa só

Uma lenda que queria partilhar com voces

. . Há muito tempo atrás depois do mundo ser criado e da vida completá-lo, houve num dia, numa tarde de céu azul e calor ameno, um encontro entre Deus e um de seus incontáveis anjos. Acredita? Deus estava sentado, calado.

. . Sob a sombra de um pé de jabuticaba. Lentamente, Deus erguia suas mãos e colhia uma ou outra fruta. Saboreava sua criação negra e adocicada. Fechava os olhos e pensava. Permitia-se um sorriso piedoso. Mantinha seu olhar complacente.

. . Foi então que, das nuvens, um de seus muitos arcanjos desceu e veio em sua direção. Ele tinha asas lindas, brancas, imaculadas. Ajoelhou-se aos pés de Deus e falou:

. . -“Senhor...visitei sua criação como pediu. Fui a todos os cantos.

. . Estive no sul, no norte. No leste e oeste. Vi e fiz parte de todas as coisas. Observei cada uma de suas crianças humanas. E por ter visto, vim até o Senhor... para tentar entender.

. . Por quê?

. . Por que cada uma das pessoas sobre a terra tem apenas uma asa?

. . Nós, anjos, temos duas... podemos ir até o amor que o Senhor representa sempre que desejarmos. Podemos voar para a liberdade sempre que quisermos. Mas os humanos, com sua única asa, não podem voar.

. . Não podem voar com apenas uma asa” Deus, na brandura dos gestos, respondeu pacientemente ao seu anjo.

. . - “Sim... eu sei disso. Sei que fiz os humanos com apenas uma asa...”

. . Intrigado, com a consciência absoluta de seu Senhor, o anjo queria entender e perguntou:

. . - “Mas por que o Senhor deu aos homens apenas uma asa quando são necessárias duas asas para poder voar... para poder ser livre?”

. . Conhecedor que era de todas as respostas, Deus não teve pressa para falar. Comeu outra jabuticaba, obscura e suave. E então respondeu:

. . - “Eles podem voar sim, meu anjo. Dei aos humanos apenas uma asa para que eles pudessem voar mais e melhor que Eu ou vocês meus arcanjos.

. . Para voar, meu amigo, você precisa de suas duas asas. Embora livre, sempre estará sozinho. Talvez da mesma maneira que Eu. Mas os humanos... os humanos, com sua única asa, precisarão sempre dar as mãos para alguém, a fim de terem suas duas asas.

. . Cada um deles tem, na verdade, um par de asas... uma outra asa em algum lugar do mundo que completa o par. Assim, eles aprenderão a respeitar-se, pois ao quebrar a única asa de outra pessoa, podem estar acabando com as suas próprias chances de voar.

. . Assim, meu anjo, eles aprenderão a amar verdadeiramente outra pessoa, aprenderão que, somente permitindo-se amar, eles poderão voar.

. . Tocando a mão de outra pessoa, em um abraço correto e afetuoso, eles poderão encontrar a asa que lhes falta... e poderão finalmente voar.

. . Somente através do amor irão chegar até onde estou... assim como você, meu anjo. E eles nunca... nunca estarão sozinhos quando forem voar."

. . Deus silenciou em seu sorriso. O anjo compreendeu o que não precisava ser dito...."

. .

(Autor desconhecido).

Espero que todos nós na vida encontremos a asa que nos falta para enfim podermos voar.

segunda-feira, maio 31, 2010

sem expressão

mata-me a alma
corta-me a língua
arranca-me os dedos
corroí-me o coração
manda os pássaros bicarem-me os olhos

eu não queria este silencio da falta de expressão
não queria não ter porque escrever
não faz sentido sonhar sem ter com que.
viver sem ter porque.
não há maior vazio do que aquele que nem criativos nos faz ser
maior degredo do que este...
deserto mais denso do que o vazio dos sentidos...

e eu só quero...
só queria ....
poder esvaziar o coração..

esvair-me eu...
tornar-me quem sabe simples chão, para ser lavrado,
lavrado pelo que for, pelo que vier a ser ,
chão de orquídeas ou tulipas,
cravos ou papoilas...
simples restolho...

mas ao menos o principio ou o fim de alguma coisa...

porque tudo em mim é sonho que termina sem raiz...
tanto em mim é vácuo

sexta-feira, maio 21, 2010

HOJE O DIA PAROU

Hoje o dia parou

Eram 03 horas da manha.

Escrevia o vazio num momento pérfido pela inconstância

Gritava a dor cá dentro como se quisesse expurga-la…Torna-la suportável.

Como se a solidão, aquela solidão do vazio dos sonhos e dos afectos pudesse ser contida.

Como se algum dia a vida pudesse ser contida numa folha de papel.

Hoje o dia parou

Sem que parassem os relógios

Sem que os pássaros deixassem de voar

Sem que os mareantes tivessem de temer as tempestades

Sem que ainda, que por um segundo, imperasse qualquer réstia de silencio

Hoje o dia parou

Sem suspiros nem murmúrios

Sem qualquer interjeição fatal improvisada

Sem sequer cair na contramão das linhas dos meus dedos

Sem ousar sequer a contramão das linhas dos meu rumo

Hoje o dia parou

Sem que os elementos se revoltassem

Sem que a chuva ousasse debaldar dos céus

Sem que as gaivotas poisassem nos areais

Sem que os morcegos regressassem aos abrigos

Hoje o dia parou

Sem parar o transito nem abalar horários

Sem atravancar as filas

Sem carregar olhares nem pesar nos ombros

Sem a poeira ou as escorias do cair das lágrimas

Hoje o dia parou

Para nunca mais me conseguir esquecer que não fui senão parado

Para não ter mais de suportar este vazio

Por não conseguir sujeitar mais o coração ao interregno

Para não mais ser eu … o interregno

Hoje o dia parou

para no vácuo não ter de me parar eu

para não sucumbir enregelado

por não conseguir conter a ausência nas entrelinhas

para matar a dor

Hoje o dia parou

para neste texto pausar o crepúsculo

para interromper o corre corre

para tentar derribar a sede

para num gesto parar a cidade

Hoje o dia parou

para que amanhã não parem os teus sonhos

para que os abraços que quiseres não fiquem por dar

para que a tua alma não cesse de sonhar

Hoje o dia parou

para que amanhã possas dizer tudo..

tudo o que ficou por dizer nas entrelinhas

tudo o que ficou no vazio das paginas

todo o bem querer que bem quiseres

todo o sonho porque por direito quiseres pugnar

Hoje o dia parou

para que amanhã possamos ser ombro com ombro unidos

para que saibas perceber os gestos

para que consigas dar valor ao toque

Porque a alegria tem de um dia acontecer


Para que esse dia comece agora

terça-feira, maio 18, 2010

O poeta morre

o poeta morre..

no final de um verso

no vazio das linhas

num interregno da alma

quando o poema deixa de ser sonho

e passa a ser palavra

o poeta morre

quando as cicatrizes

se converterem em chagas

e deixarem de ser marcas de viagem

quando a dor deixar de nos derribar

por já não nos sentirmos cair

o poeta morre

quando o canto deixar de ser sopro

e passar a ser pranto

quando o grito se tornar vácuo

quando a revolta se conformar na apatia

quando nada mais puder doer além da dor

o poeta morre

quando os lábios deixarem de se morder só por querer tocar-se

quando os corpos se esquecerem de gestuar

quando braços e costas deixarem de saber entrelaçar-se

o poeta morre

quando o amor deixar de ser cantado

quando o sonho tiver perdido a memória

por deixar de ser querido

quando a opressão de tão habitual

deixar de revoltar

O poeta morre

quando o pássaro em nós se esquecer de ser Fénix

e não tiver outro remédio além de zarpar da alma

quando os viajantes que somos deixarem de inspirar outras paisagens

o poeta morre

quando nada, mas mesmo nada precisar de ser cantado...

quando a esperança morrer

quando deixar de fazer sentido ser essência

quando o sonho deixar de ser sonhado

o poeta morre

quando a criança que mora nos poetas se tornar um autómato

quando o coração se converter em pedra

quando tudo se desfizer na areia do tempo

e não tivermos nada para cantar além do vazio

e o vazio esse desistir de se encher de palavras

domingo, maio 02, 2010

uma mão aberta

uma mão aberta
no vazio dos sonhos
na alma que fica à espreita
deserta de sentimentos
dois sentires que mal se sentem
braços que jamais se entrelaçarão
saudades do gesto
do teu gesto...
sopros do mundo sem medo do vento
sopros do vento com medo do sonho..

e depois de tudo
só depois de tudo

,.....
esta saudade

sexta-feira, dezembro 11, 2009

vá lá

Vá lá
Mantém a fogueira acesa
Que eu tenho um frio na alma
E dentro de mim há um fogo
Que teima em só se acender quando sorris

Vá lá
Deixa de lado esse silêncio, deixa falar a emoção
Não precisamos de grilhetas nem prisões
Que não há lemas que cheguem aos corações
Se amordaçarmos os sentidos

Vá lá
Dança comigo esta noite
Solta essa música magica que só mora em ti
deixa-me compor-te uma balada
com os acordes da batida do coração

Vá lá
Mata-me a sede do corpo e da alma
Vem ser minha calma, senhora de todos os caminhos
Revira-me o mundo debaixo dos pés
Que eu quero trilhar rumos novos



Vá lá
Atraca-te a mim segura
Que os meus ombros estão ansiosos por ser cais
E os meus braços juraram suportar todos vendavais
Sem medo dos teus cansaços

Vá lá
Faz do meu corpo a tua ilha
Deixa-te adormecer no bater que me vai no coração
E só faz sentido ver a lua a brilhar
Sossegado no horizonte dos teus braços

Vá lá
Dá sentido à minha essência
Que eu estou farto da incongruência de ser barco sem rumo
E mesmo o maior dos sonhadores precisa de um prumo
Para dar cor aos sonhos que escrevo

Vá lá

sexta-feira, setembro 25, 2009

Dentro de Nós

As vezes há dentro de nós
Um querer ir sem rumo
Um não querer ser poema
Um ficarmos sós
Um passo qualquer a cair da linha
Num poço sem fundo

As vezes somos
Bússola sem norte
Heróis despidos dos fatos
Flores de pétalas sem cor
Notas musicais saídas do tom
Braços abertos …sem ter o que abraçar

As vezes somos
Ocasos sem nexo,
nados mortos
Vagabundos da existência
Piratas da abundância
Matadores de sonhos

As vezes somos
Vazios… marasmos…
Perdidos…
sofridos…
Escolhos atirados….
Dos rios da vida

As vezes somos
Náufragos de nós
Sem escutar… o sopro da alma que é a nossa voz…
Sem vermos… o palpitar dos sonhos bem dentro do peito…
Sem lermos…. o turbilhão das letras que mora nos sonhos …
Sem ousar… ir além no mapa.. mais além que o globo
Ir além ….de nós.…

as vezes
despojamo-nos dos sentidos
e somos figurantes de peças perdidas
elos de cristal quebrado
a dar tudo por tudo com o maior afinco…
sem temer morrer no cair do pano

as vezes teimamos…
em não querer sonhar
em não querer sentir
….o aperto no peito
…qualquer coisa renasce em nós
… uma réstia de luz

E não acreditamos
Que é nosso o destino
Que há sonho em nós
Que é hora de zarpar
Que são nossos os pés que trilham os caminhos
Que há um infinito além do olhar…

Por isso hoje este desabar
Por já não querer esconder
Por não temer ver-me derribar
Por não já não querer pensar
Por saber ser acaso além das naus
Buraco sem fundo acordado

Por isso hoje este meu contar
Porque há qualquer coisa a dizer que é hora de partir
Porque é preciso zarpar para não me findar
Porque vos levo a todos nas memórias que guardo no olhar
Sonhos que idealizei e não consegui
Cometas alados a suplicar …Estrelas doces de devir

Porque sei que ainda vou sorrir
Por tudo o que ainda tiver de ser.
Vagabundo saltimbanco por sorrisos
Pirata acrobata com perna de cristal…
Actor louco em busca da ode triunfal
Um nada que se finda e recomeça
Renasce e triunfa num abraço.

Porque sei que onde for Levo comigo
Pedaços de tudo o que já fui,
Lembranças de noites sem dormir
E por maior que seja a dor da ausência
Talvez possa compreender que afinal me achei
nos momentos em que me perdi e em vão me dei

quinta-feira, setembro 03, 2009

O amor .. outra vez o amor... entre o amor e o nada

Andava eu à procura de qualquer coisa no meu blog que expressasse a dificuldade em escrever aqui alguma coisa (por força do vazio que me leva a capacidade de me expressar), quando fui visitado por Memória de Elefante, e sem que a própria pessoa que me visitou o soubesse, pude através dela descobrir mais um poeta genial brasileiro.
Refiro-me a João Cabral de Melo Neto.
Porque este espaço é também um espaço de reconhecimento e de partilha deixo o poema mais belo que encontrei desse poeta, com um agradecimento aos que me visitam por sonharem e a esperança de que gostem do que vos trouxe...
até porque o poema é fenomenal...
bem hajam
Os Três Mal-Amados
O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.
O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.
O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.
Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.
O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.
O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.
O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.
O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.
O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.
João Cabral de Melo Neto

sábado, agosto 22, 2009

não queria sentir...

não queria sentir o que sinto...
porque não ando a sentir nada...
porque pareço anestesiado...
porque quase nada me da prazer...
porque me começo a conformar com este vazio...
porque começo a duvidar se faz sentido continuar à procura do que busco...
porque sei que se encontar vou estragar tudo...

porque gostava de ser ermita...

gostava de não me corroer por dentro...

porque já nem corroer-me por dentro me doi

terça-feira, agosto 18, 2009

loucura .. segundo Albert Camus

CALÍGULA: - Pensas que estou louco.

HÉLICON: - Bem sabes que nunca penso. Sou demasiado inteligente para tal.

CALÍGULA: - Bom. Enfim! Mas não estou louco e até nunca fui tão razoável. Simplesmente, senti em mim um súbito desejo de impossível.
(pausa)
As coisas, tal como estão, não me parecem satisfatórias.

HÉLICON:- É uma opinião bastante difundida.

CALÍGULA: - É verdade, mas antes não o sabia. E agora sei.
(Sempre natural.)
O mundo, assim como está, não é suportável. Por conseguinte, preciso da lua ou da felicidade, ou da imortalidade, de qualquer coisa que seja loucura, talvez, mas que não pertença a este mundo.

HÉLICON: - É um raciocínio lógico, mas geralmente não se pode levar até o fim.

CALÍGULA: (erguendo-se, mas sempre com simplicidade)
- Isso é que tu não sabes. Não se consegue nada precisamente porque nada se leva até o fim. Mas talvez baste levar a lógica ao extremo limite.
(encarando Hélicon)
Bem sei o que estás pensando. Tanta história pela morte duma mulher! Não, não se trata disso. Parece-me recordar, é certo, que há dias morreu uma mulher que eu amava. Mas que é o amor? Pouca coisa. Essa morte não é nada, juro; é apenas o indício duma verdade que me torna a lua necessária. É uma verdade clarissima, ate simplória, mas difícil de descobrir e dura de suportar.

HÉLICON: - E que verdade é essa, Caio?

CALÍGULA: (voltado para o lado e em tom neutro)
- Os homens morrem e não são felizes."


Albert Camus, Calígula

terça-feira, agosto 11, 2009

Noite e tu

A noite pede a poesia.
Nas horas paradas vazias.
Nos gritos perpétuos sem sonho,
no vazio solitário em que a mente se despe
e a alma se abandona.

A noite pede sonho e canto.
Por todo o encanto parado.
Todas as horas desligadas.
Todo o fado fadado.

A noite pede sorrisos...
longe das dores, pelos aconchegos.
longe das mágoas pelas essências.
longe da desilusão pela persistência do sonho.
Longe do cansaço pela esperança,
longe de todos os medos pela inocencia.
De todos os mal me queres por todos os bem quereres.
De todas as escuridoes pela mais bela das luzes.

Ha uns dias a minha noite pedia tudo...
aconchego,
esperança,
luz,
a poesia que tinha perdido ....
nas palavras que tinha deixado de encontrar...
magia...
Foi então que viéste...
que veio o teu sorriso e o teu abraço,
a promessa da essência da amizade ,
a possibilidade de sonhar,
foi então que contigo ...
Só contigo...
veio tudo.

sexta-feira, agosto 07, 2009

as vezes é tempo....

As vezes é tempo...

De partir sem querer voltar

De ser papel solto ao vento

De ser gota de agua em todo o mar

As vezes é tempo....

de ser barca sem ter cais

de se querer ser não sendo

de ser mais um entre os demais

as vezes é tempo....

de largar amarras e zarpar

despir as vestes de todos os compromissos

vencer todos os medos, todos os males

as vezes é tempo... todo o tempo....

de sermos nós

de sermos alma solta

de ouvir… apenas ouvir…

a nossa voz.

sexta-feira, junho 05, 2009

Tianaanmen - 20 anos... Porque não podemos esquecer




O Protesto na Praça da Paz Celestial (Tian'anmen) em 1989, mais conhecido como Massacre deTianaanmen, ou ainda Massacre de 4 de Junho consistiu numa série de manifestações lideradas por estudantes na República Popular da China, que ocorreram entre os dias 15 de abril e 4 de junho de 1989. O protesto recebeu o nome do lugar em que o Exército Popular de Libertação Chinês suprimiu a mobilização: a praça Tiananmen, em Pequim.

Os manifestantes (por volta de cem mil) eram oriundos de diferentes grupos, desde intelectuais que acreditavam que o governo do Partido Comunista Chinês era demasiado repressivo e corrupto, a trabalhadores da cidade, que acreditavam que as reformas económicas na China eram demasiado lentas e que a inflação e o desemprego estavam a dificultar as suas vidas.

O acontecimento que iniciou os protestos foi o falecimento de Hu Yaobang( lider político chinês com tendências mais reformistas que as de Deng Xiaoping, que fora incapaz de reprimir os movimentos de estudantes de 1986)

Os protestos consistiam em marchas pacíficas nas ruas de Pequim.

Face a esses protestos o Partido Comunista Chinês decidiu usar a força mobilizando o exercíto contra os manifestantes ao invés de procurar ouvir suas reivindicações.

Em 20 de maio, o governo declarou a lei marcial e, na noite de 3 de junho, enviou os tanques e a infantaria do exército à praça de Tiananmen para dissolver o protesto.

A 4 de junho os protestos e a repressão agudizam-se.

As estimativas das mortes civis variam: 400 a 800 (segundo o The New York Times), 2 600 (segundo informações não identificadas da Cruz Vermelha chinesa) e sete mil (segundo os manifestantes).

O número de feridos estima-se entre sete mil e dez mil..

O governo chinês decretou ainda prisões em massa para suprimir os líderes do movimento, , o número de presos ainda continua por ser revelado e alguns deles ainda estão detidos ou desaparecidos.

Depois expulsou a imprensa estrangeira e controlou completamente a cobertura dos acontecimentos na imprensa chinesa.

A repressão do protesto pelo governo da República Popular da China foi condenada pela comunidade internacional.

No dia 5 de junho, um jovem solitário e desarmado invade a Praça da Paz Celestial e anonimamente faz parar uma fileira de tanques de guerra, tal como se pode ver na foto do fotografo americano Jeff Widener da Associated Press numa imagem que correu o mundo e que se tornou um icon daquela luta.

O rapaz, de cuja identidade nunca foi revelada ficou conhecido como "o rebelde desconhecido" e foi eleito pela revista Times como uma das pessoas mais influentes do século XX.

A sua coragem para mim e para tantos outros da minha geração tornou-se um exemplo de liberdade e de sonho, dai que tenha feito este post sobre Tian'anmen … porque alguns de vocês que me lêem são novos de mais para saberem o que se passou…

Porque alguns de vocés já se esqueceram.

Porque o governo chinês quer por tudo abafar este episódio trágico da história daquele povo.

Porque não podemos, não poderemos esquecer.

quarta-feira, maio 06, 2009

Homenagem a Vasco Granja (1925-2009)


Obrigado

Pelo encanto das bandas desenhadas que mostravas, por me teres apresentado o tintin, o lucky lucke, o Chic Bill, o Spirou e Fantasio, o gaston laggaffe, a betty boop, o Mickey Mouse, e tantos outros personagens.


Por me teres fomentado o gosto de ler e escrever e assim os sonhos e a imaginação, pilares importantes daquilo que acabou por ser o meu futuro.


Por me teres feito ver que no mundo, sobretudo com os desenhos animados vindos de paises distantes como os paises de leste havia mundos diferentes, pessoas diferentes, culturas diferentes.


Por teres tido uma preocupação activa e constante em fazer com que a selecção que fazias deixasse transparecer sempre uma mensagem de harmonia e de paz, capaz de envolver o mundo.


Obrigado sobretudo pela simpatia e boa disposição com que entravas em minha casa, pela televisão aos fins de semana e ajudavas a encantar a minha infancia.




Vou ter saudades





Vasco Granja (nascido em 1925) foi um apresentador de televisão português, reconhecido pelo seu grande contributo para a divulgação da animação e da banda desenhada em Portugal.
Apaixonado desde miúdo pelo cinema, Vasco Granja esteve envolvido no movimento cineclubista dos anos cinquenta. A sua relação com os movimentos de oposição ao Estado Novo e ao Partido Comunista Português valeram-lhe duas prisões pela PIDE, uma delas durante dezasseis meses, onde sofreu em Peniche várias torturas físicas e psicológicas, como a tortura do sono.
Em 1974 inaugurou um novo programa na televisão, "Cinema de Animação", que duraria 16 anos. Nesses programas, dava a conhecer a animação de todo o mundo, desde aquela que era realizada nos países do leste da Europa, até à proveniente da América do Norte. Pretendia, com o seu programa, divulgar, para além da própria animação, uma mensagem de paz, que considerava estar presente em muitos dos filmes da Europa de Leste que transmitia.

Em 1975, criou um curso de cinema de animação, a partir do qual viria a nascer a Associação Portuguesa de Cinema de Animação.

Em 1980, foi membro do júri da quarta edição do Animafest, o Festival Mundial de Animação de Zagreb, realizado na então Jugoslávia.

domingo, abril 26, 2009


"Os ventos que as vezes tiram algo que amamos, são os mesmos que trazem algo que aprendemos a amar...Por isso não devemos chorar pelo que nos foi tirado e sim, aprender a amar o que nos foi dado. Pois tudo aquilo que é realmente nosso, nunca se vai para sempre... "


"...Os homens pensam que possuem uma mente,
mas é a mente que os possui
Há pessoas que amam o poder,
e outras que tem o poder de amar... "

"...Difícil não é lutar por aquilo que se quer, e sim desistir daquilo que se mais ama.
Eu desisti. Mas não pense que foi por não ter coragem de lutar, e sim por não ter mais condições de sofrer..."

Bob Marley

Porque estas palavras me envolveram a alma e o espirito... e deram sentido ao lado de la do amor, o lado onde mora a entrega suprema, a dádiva mas ao mesmo tempo a necessidade de ... depois de darmos tudo... seguirmos em frente pra continuar vivos.

bem ajam

quarta-feira, abril 01, 2009

sonho

"toda a vida é um sonho, não tem regras nem livros, limita-se a estar lá... a esperar ser descoberta... não sei se este é o sonho que procurava, ou se algum dia o chegarei a encontrar, tenho por isso de me manter agarrada até a tempestade passar"


porque este texto escrito há anos por uma amiga podia hoje ser o meu texto... porque há um vendaval de sonhos que surgem e se desfazem... um não sei que de poesia que nasce e se esgota em mim.
porque há uma sede de corpo que não se sacia e a alma essa enche a vida até transbordar de sonhos.

sábado, março 28, 2009

Feliz Dia do Teatro

Porque hoje se brindam

Os fazedores de sonhos
Os contadores de estrelas
Os domadores de luzes
Os aprendizes da imaginação

Porque hoje se brinda

Cada subir de palco
A contenção do gesto
A voz dos silêncios
A magia dos sentidos

Porque hoje se brinda
O sonhar sem fim
O ser mais que o próprio sonho
O recriar da vida
O sorver da luz

Porque hoje se brinda
O amor e o ódio
A paz e a guerra
A vida e a morte
O dia a acontecer em cada peça

Porque hoje se brinda
O olhar e o gesto
A contenção e o êxtase
Os beijos e as lágrimas
Uma mão erguida por todas as mãos erguidas

Porque hoje se brinda

O dito e o não dito
O expresso e o oculto
Tudo o que se diz
E a força do que não se diz e que se sente

Porque hoje se brinda

A Moliere, a Gil Vicente, a Brecht
A todos os recriadores da vida
Que inconformados com a apatia do finito
Não deixam de rescreve-lo e conta-lo

Porque hoje se brinda
O nervoso miudinho e as superstições
A tudo de nós que se empresta aos personagens
A toda a entrega, tanta entrega, tanto querer
A ousadia de nascer e ir morrendo peça a pós peça.

Porque hoje se brindam
Às plateias cheias
Às gargalhadas e suspiros que deixam de estar amordaçados
Ao prazer que se desmancha em palmas
Aos silêncios cúmplices que dizem tanto


Porque hoje se brinda

ao teatro
aos actores
aos encenadores
ao publico


brindo a todos vocês que no palco
com amizade, engenho e alma...
amam o teatro, amam o sonho
e são corrente desta arte, deste respirar deste sorver
deste saber ser que só se é no palco

Pedro Antunes

27-03-09


nota:
este texto é dedicado às várias gerações de aprendizes de actores que conheci no Tea-to e que me brindaram com a sua amizade, é uma sentida e sincera homenagem dada a alguém que ousa sonhar e ser grande.

bem hajam