quarta-feira, maio 25, 2011

Dar Sentido à vida




"Os nossos dias estão contados.

Neste preciso instante, milhares de pessoas estão a nascer, algumas das quais vão viver apenas alguns dias ou semanas e morrer de doença ou de outras causas. outras estão destinadas a viver um século, talvez mais do que isso, e a provar tudo o que a vida tem para lhes oferecer: o triunfo, o desespero, a alegria, o ódio e o amor. Não se pode saber mas quer vivamos um dia ou um século o sentido da existencia é a busca da felicidade" Dalai Lama

terça-feira, maio 03, 2011

Amors

" Em todo amor há pelo menos dois seres, cada qual a grande incógnita na equação do outro. É isso que faz o amor parecer um capricho do destino – aquele futuro estranho e misterioso, impossível de ser descrito antecipadamente, que deve ser realizado ou protelado, acelerado ou interrompido.

Amar significa abrir-se ao destino, a mais sublime de todas as condições humanas, em que o medo se funde ao regozijo num amálgama irreversível.

Abrir-se ao destino significa, em última instância, admitir a liberdade no ser: aquela liberdade que se incorpora no Outro, o companheiro no amor. “A satisfação no amor individual não pode ser atingida sem a humildade, a coragem, a fé e a disciplina verdadeiras”, afirma Erich Fromm –
apenas para acrescentar adiante, com tristeza, que em “uma cultura na qual são raras essas qualidades, atingir a capacidade de amar será sempre, necessariamente, uma rara conquista” "



Zygmunt Bauman in AMOR LÍQUIDO

sexta-feira, março 18, 2011

Patinagem

Houve um sonho

que se realizou

Pássaro que voou

Com asas de rodas

Num céu de patins

Ave que se libertou

Numa pirueta

Com gestos tão soltos

E mostrou que há céu

Num doce sorriso

Princesa do ring

a rodopiar

Rumo ao firmamento

Em cada momento

Como um bater de asas

Fénix que renasce

Num gesto encantando

Figuras recordadas

De um devir passado

Memórias da arca dos sentidos

Corpo que se solta

Ao ritmo da música

Sem sair do tom

Como se bailasse

Num mundo encantado

Tenta um avião

Num primeiro ensaio

e sorri de novo

Ternura que se redescobre

Mulher que volta a ser menina

Grifo que se solta

sem medo do espaço

Em pleno equilíbrio

E escreve poemas

Pelo campo todo

E mesmo quando cai

Traída pelas rodas

Vence o contra-tempo

num toque de orgulho

menina que cresceu e é mulher

e eu que não voo

nem tenho equilíbrio

e sou desconcertado

fico comovido

com o voo da ave

e sem nunca ter pensado

em augurio algum

nem no mais íntimo atrevimento

deste meu ser louco

ousar sequer imaginar calçar patins

dou por mim agora falar de patinagem

livre neste ring feito de papel

e vou fazendo spins e serpentinas com a caneta

com tanta comoção como se menino fosse

porque menino fico ao vê-la

e escrevo por escrever…

sem segunda intenções

só para recordar a alguém a luz que tem

só para lhe lembrar a liberdade

só para lhe agradecer por ser ave

Porque foi tão bom vê-la sorrir

E é tão bom recordar esse sorriso

Bem cá dentro na memória

No canto mais íntimo dos sonhos

Vela de amizade que se acende

Porque com ela vou percebendo

que os sonhos de menino vencem a idade

Sopros de essências antigas mas presentes

Esperanças que não devem desfazer-se a preço algum

Pois nada vale mais que os sonhos

E por tudo o que foi e o que irá ser

Por toda a magia dos sorrisos

Por toda a liberdade dos seus gestos

Por toda a ternura doce da sua presença

Lhe estou grato

E sonho , e acredito, e creio , e voo

Desafiarei o firmamento e o espaço

Calçarei patins se for preciso

Só para despertar nela o seu sorriso

Apenas porque há sorrisos que são tudo

segunda-feira, janeiro 24, 2011

Trago

Trago a alma apertada

Despida de sentido

Sou como um pássaro sem asas

Um conto perdido no meio ruído.

Sou nota musical fora do tom

Sátira de um poeta que foi bom

Navio sem âncora nem rumo

Caravela abandonada aos temporais

Despojos de papel na neblina

Aves perdidas nos céus

Golfinhos piloto sem norte

Parede construída sem ter fio-de-prumo

E sou de mim mesmo pura má sorte

Pelas vezes em que deixo soltar o coração

Pelas vezes em que a alma se converte na emoção

Pelas vezes em que devia ser só gelo

Mas pago os rumos todos que percorro

Por todos os beijos que não dei e pude dar.

Por todos os lábios que nos meus podiam ficar aprisionados

Por todas as outras vezes em que a palavra amor podia deles ter-se escapado.

E sei que sou do vazio de mim mesmo responsável

Por todas as tantas vezes em que bastava dizer quero e não disse

Por todas as pessoas que amei e não mereceram

Por todas as pessoas que mereciam e não amei

E sei a dor que se sente à noite

Quando um outro corpo nos faz lembrar que partiu do quarto

Quando nas quatro paredes se sente só o eco

Quando nas roupas não há outro perfume

Quando dou por mim no vazio das linhas

A matar os vazios que tenho cá dentro

Como se fosse eu que louco…

Não morresse a cada espaço

quinta-feira, janeiro 13, 2011

Poema para um sonho que se foi

No teu poema

Coloco o meu mundo

Destino tão solto

Meu doce fonema

Falo da alma

Que me enche os sonhos

Falo do corpo

Que se fez meu tema

Falo dos lábios

Que não toquei

Carnudos rosados

Que em sonhos beijei

Falo das tuas mãos

Perdidas nas minhas

Num encontro de dedos

Carícias divinas

Falo das lágrimas

Choradas ao vento

Quem me dera ser ombro

Para as ter suportado

Quem me dera ser anjo

Para te velar

Quando à noite o silencio

Te faz assustar

Quem me dera ser corpo

No teu enroscado

Saber-te segura

Noite a dentro ao meu lado

Embalar-te tão terna

Num abraço profundo

Ficar acordado

A ver-te sonhar

Quem me der ser ave

Para poder-te velar

Rumo ao horizonte

Na magia lunar

Porque tu és …

Rebelde maré

Bravo vento,

Mil vagas

Meu cais das tormentas

Destino traçado

Ode louca, poema

Minha perdição

Meu Caminho errado

Na senda da vida

Circe de mil histórias

Flor da paixão

Doce deusa grega

Diva de Fellini

Musa de Almodôvar

Dama de shangay

Meu canto profundo

À deriva do mundo

Princesa rebelde

Ultima salvação

Fogueira acesa, Farol

Sonho querido e guardado

Suspiro de um louco

Neste sopro cantado

Solto fogo preso

Bússola sem norte

Meu rebelde horizonte

Perdido e encontrado

porque tu es tanto, vales tanto

e eu louco sonhei

poder ser tanto...

ao teu lado

sexta-feira, novembro 12, 2010

E se simplesmente um olá bastasse…

A vida às vezes estende a dor e o vazio mais do que a garganta e o olhar conseguem suportar, às vezes damos por nós em pequenos grandes abismos e entendemos de súbito o quão frágeis são realmente os nossos sonhos, a perspectiva que temos da vida e do futuro, o quão frágeis são os laços que nos unem, o quão limitada pode ser a possibilidade de rumar contra a corrente.
Às vezes damos por nós a bater vez a pós vez contra barreiras que erguemos sem querer, não por vontade, mas por não termos consciência dos contornos da teia em que vivemos e da quão limitada é a nossa hipótese de redenção.
Porque às vezes mesmo que sem querer, ou até querendo ajudar, damos por nós a perturbar o equilíbrio das coisas e desencadeamos exactamente a resposta contrária da pretendida e acabamos por afectar negativamente aqueles que mais queremos e afastamos quem realmente queríamos ter connosco.
Porque hoje em dia a informação circula de todas as formas e se torna fácil fazer cem ou mesmo mil amigos no facebook ou no hi5, em escassos dias, mas é cada vez mais difícil encontrar alguém capaz de nos entender e de nos abraçar.
Alguém que simplesmente saiba estar lá nos bons e maus momentos, da folia da vida ao vazio da desesperança.
Alguém para quem realmente possamos estar lá sem termos medo que se vá.
Porque as vezes os rumos da vida, a mudança das estações da idade, o frenesim que acaba por nos absorver (neste febre de quem acredita que ocupar o tempo todo como se o tempo nos escapasse é estar integrado) nos impede de acompanhar os voos daqueles de quem mais gostamos e acabamos por seguir caminhos diferentes, não por o queremos, mas porque às vezes os espaços de encontro se vão tornando tão raros que as histórias de vida que nos uniam se vão desligando e desprendendo sem muitas vezes darmos conta disso.
Porque na nossa sede securizadora de coisa nenhuma nos fechamos nas nossas pequenas vidas e nos fechamos entre quatro paredes esquecendo que somos actores e responsáveis da causa comum que é o sonho de um mundo melhor.
Porque fazer pontes e suar a camisola é muito mais difícil do que ser treinador de bancada no resguardo do fim das linhas do campo ou no conforto de uma poltrona.
Porque é cada vez mais fácil mudar a nossa camisola ao mínimo desaire
Porque nos nossos dias o bota-abaixo é doutrina e os seus seguidores reis e senhores do pensamento no marasmo que passa na TV.
Porque cada vez é mais fácil cair numa espiral descendente sem que nos apercebamos que o estamos a fazer, mas também porque quando finalmente o conseguimos entender é cada vez mais difícil encontrar alguém, anónimo ou não, disposto a estar do nosso lado, para que possamos ainda que à bolina dos seus olhos, atrever-nos a rumar contra a maré.
Porque muitas vezes nos tornamos autómatos do dia-a-dia e deixamos dissolver, no caos dos problemas, a nossa humanidade e a nossa capacidade de olhar o outrem como um igual, como um de nós e nos esquecemos de ser cais contra a torrente e deixamos de fazer amarras e pontes com os outros fazendo com que deixemos de entender os sinais que nos permitem ver se o outrem que nos está próximo está mal ou bem, mesmo quando esses sinais são por demais evidentes.
Presto aqui a minha homenagem póstuma e sentida ao Senhor do Adeus, ou Senhor do Olá, como gostava de ser tratado, João Manuel Serra, falecido a 10/11/2010, aos 79 anos, pessoa bem conhecida dos portugueses e em particular dos Lisboetas que todas as noites desde há quase dez anos, acenava aos carros e às pessoas que passavam nos arredores do Saldanha ou do Restelo em Lisboa, sempre com um sorriso estampado na cara e com uma boa disposição, um cuidado no trato e uma postura que lhe conferiam um perfil quase aristocrático e que o tornaram num ente querido para muitas pessoas, quase que um ícone da pureza que ainda mora nas nossas almas apesar da urbe, como se pode comprovar pelas imensas e sentidas homenagens que lhe têm prestado.
Faço-o com toda a reverência que se pode ter por alguém que na sabedoria da sua idade descobriu que às vezes a diferença, a subtil diferença entre o vazio do abismo ou o despontar da esperança reside num pequeno gesto, num pequeno carinho.
Faço-o comovido com a forma mágica com que ele destemido brindava toda a gente fizesse chuva ou sol, com o melhor de si, sorrindo e acenando a todos, fosse quem fosse, independentemente do facto de querer também ele através desse gesto afugentar a sua própria solidão "Essa senhora malvada, que o perseguia por entre as paredes vazias da casa” e a quem procurava escapa indo para a rua acenar na sua forma tão natural como especial de “comunicar e de sentir gente”, até porque ser capaz de partilhar a sua fragilidade é uma considerável prova de coragem.
Faço-o porque o Saldanha, eu, todos nós vamos sentir falta desse acenar que saudava toda a gente…
Porque a cidade de Lisboa com a morte dele ficou mais vazia e perdeu um dos seus enigmas…
Faço-o sobretudo porque também eu acredito na importância de pequenos gestos.
Faço-o em sua memória, por todos os bons dias que em sua homenagem passaremos a dar com quem nos cruzamos.
Por toda a importância que tem romper o silêncio.

terça-feira, setembro 07, 2010

As pessoas não se tornam especiais pela maneira de agir, mas sim pela profundidade que atingem nossos sentimentos. Foi desse jeito que você me conquistou. Você conseguiu um lugar especial em meu coração não só pela sua beleza, mas também por ser essa pessoa maravilhosa, carinhosa e humilde ... Enfim, pelo seu jeito simples de ser e por todas as melhores qualidades que alguém pode possuir. Nada neste mundo jamais me fará esquecê-la, sempre será especial em minha vida”

terça-feira, agosto 17, 2010

Não me venhas falar de emoções

Não me venhas hoje falar de emoções

Que eu já não ligo as tentações do torvelinho

E dentro de mim algo morreu

Talvez um sonho de profetas, talvez eu

No desalinho remoído dos poemas

É que não há amor…. sonhos eternos

Nem fados de ir embora no corrupio

E o inevitável nisto tudo é que por mais que se queira renascer

Cada gesto é sempre uma memória de um outro gesto já dado

Cada beijo traço dos lábios de outra circe

Que em cada vez que se diz fica há pedaços de alguém que se perdeu

Que em cada vez que se quer mudar há uma sina que teima em repetir-se

E no final de tudo quando o poema deixar de ser dito para passar a ser vivido

Quando a falta de experiencia for compensada pelo sonho de amores maiores

Quando a esperança se cansar de comandar a própria vida e nos permitir viver

Quando em nós mais do que as lágrimas for derramado o sangue da vida, sequioso de promessas.

Quando rubros de afecto encontrarmos nexo nos contornos curvilíneos de um corpo

Mesmo aí… há beira do apogeu dos anjos e dos homens…

Naqueles momentos em que ganhamos asas e voamos

Em que nos deixamos ser chamas e nos sentimos a arder por dentro…

Quando depois do êxtase nos mimamos etéreos de bem querer

Haverá sempre memórias de um corpo e de uma alma …

Cicatrizes deixadas nas marcas da pele que alguém já percorreu nas entrelinhas

Despojos de memórias pejados nas paredes..

E no final….

Só no final….

Um sonho de menino

Mortinho por ser menino

E sonhar de novo…

Como da primeira vez que se sonhou

Todos os sonhos

sexta-feira, julho 30, 2010

António Feio




Aproveitem a vida e ajudem-se uns aos outros. Apreciem cada momento. Agradeçam, e não deixem nada por dizer; nada por fazer”.

António Feio in Contra Luz


Hoje fiquei com a alma presa à garganta, presa na flor de todos os sentidos, sem aforismos, sem nada conseguir dizer, com tanta coisa para te dizer ainda que não te tenha conhecido.
Ainda que além da magia com que nos conquistaste no palco, só tenha de ti, as recordações da tua juventude, dadas por alguém que conviveu contigo ainda que remotamente, com a lembrança de alguém que, ainda jovem, em Lourenço Marques, era capaz de saltar de um navio atrás do chapéu de uma professora levado pelos ventos.
Partiste dos palcos da terra para outros palcos maiores...
e já nos fazes falta sabes...
já sentimos falta do teu brilho, falta da tua essência, falta do teu humor e da tua garra ... mesmo à beira do fim.
Como vamos nós mostrar-te que aprendemos a tua lição.
Como vamos testemunhar-te que o fizemos...
Mais um vez só o silencio resta... o silencio em tua honra... com todas as pancadas de moliere dadas no coração e um magnifico obrigado pelo exemplo que nos deste.
bem hajas

segunda-feira, junho 14, 2010

epistula finita

e amanha o céu deixará de ser azul...
e o breu será a cor negra do destino que nos percorre a alma..
e amanhã deixarão de haver poetas ...
e negro será o vazio das páginas da vida que ficaram por escrever...

eu nunca quis isto,
ter de escrever a vida como se a vivesse sem o fazer...
ter de escrever a solidão que oculta os sentidos...
esta página qualquer de alma arrancada de mim.

sexta-feira, junho 11, 2010

Escrevo sobre a vida no papel

Ou melhor escrevo sobre a minha visão da vida….

Sobre a visão que tenho do meu mundo, com toda a consciência do quão limitada é a visão das minhas vivencias perante a imensidão dos sentimentos e a grandiosidade desta mãe terra que é a nossa.

Escrevo sobre o que sinto, o que sou, sobre o que tenho e o que não tenho, sobre o que dou e o que recebo, sobre o que recebi e não soube retribuir, sobre o que dei e não cheguei a receber…

Escrevo sobre o que fiz e o que não fiz, sobre o que fiz e não devia ter feito, sobre o que devia ter feito e não consegui, escrevo mesmo sobre aquela meta adiada e adiada que sempre quis alcançar e nunca consigo. …Escrevo talvez porque não consigo

Escrevo sobre as vezes em que amei e disse presente mas também sobre as vezes em que amei e não soube dizer, sobre as vezes em que a palavra amor foi grito aos sete ventos, mas também sobre as vezes em que cada letra ficou remordida e remordida nos lábios de uma forma tão profunda que nem sequer o mais arguto dos murmúrios soube encontrar.

Escrevo sobre tudo, do infinito ao ínfimo, da luz à escuridão, do corpo à essência, das grandes causas ao nada… dos nadas aos grandes sonhos… Escrevo muitas vezes pequenos nadas que são tudo.

Escrevo às vezes para lembrar, às vezes para esquecer, às vezes por querer ficar, às vezes por querer partir, às vezes porque vivo, outras porque não vivo, às vezes porque conto, as vezes porque resto.

Escrevo acima de tudo porque me dou, nos meus poemas, neste blog, nas minhas mensagens de telemóvel, numa folha qualquer escondida dentro de um jornal, deixado ao acaso para que alguém anónimo a encontre.

Escreverei um dia nas paredes num sopro de liberdade…

ESCREVO PORQUE EXISTO….

Mesmo limitado, na minha forma (im)perfeita de ser e de me dar…

Mesmo sabendo que caio tantas vezes no ridículo…

Mesmo sabendo que estou tantas vezes isolado....

Mesmo sabendo que para muitos a escrita não é nem nunca será mais do que uma figura de estilo indiferente aos sonhos…

Mesmo não conseguindo entender como pode ser “belo” erguermos a mão contra o vazio, sabendo que ninguém a alcança.

Escrevo agora na esperança de que me leias …

Porque sei que me vais ler, sobretudo para te pedir desculpa do exagero na forma de te buscar,

Pela minha não forma de saber lidar com o tempo e a distancia…

Por não saber o sabor da ausência

Por não estar presente de outra forma…

Por não conseguir ser apenas poema escrito no papel atirado aos ventos à espera dos sonhos

Por não ser uma melhor maça, metade arrancada de mim para te entregar

Bem hajas

quarta-feira, junho 09, 2010

Anjos de uma asa só

Uma lenda que queria partilhar com voces

. . Há muito tempo atrás depois do mundo ser criado e da vida completá-lo, houve num dia, numa tarde de céu azul e calor ameno, um encontro entre Deus e um de seus incontáveis anjos. Acredita? Deus estava sentado, calado.

. . Sob a sombra de um pé de jabuticaba. Lentamente, Deus erguia suas mãos e colhia uma ou outra fruta. Saboreava sua criação negra e adocicada. Fechava os olhos e pensava. Permitia-se um sorriso piedoso. Mantinha seu olhar complacente.

. . Foi então que, das nuvens, um de seus muitos arcanjos desceu e veio em sua direção. Ele tinha asas lindas, brancas, imaculadas. Ajoelhou-se aos pés de Deus e falou:

. . -“Senhor...visitei sua criação como pediu. Fui a todos os cantos.

. . Estive no sul, no norte. No leste e oeste. Vi e fiz parte de todas as coisas. Observei cada uma de suas crianças humanas. E por ter visto, vim até o Senhor... para tentar entender.

. . Por quê?

. . Por que cada uma das pessoas sobre a terra tem apenas uma asa?

. . Nós, anjos, temos duas... podemos ir até o amor que o Senhor representa sempre que desejarmos. Podemos voar para a liberdade sempre que quisermos. Mas os humanos, com sua única asa, não podem voar.

. . Não podem voar com apenas uma asa” Deus, na brandura dos gestos, respondeu pacientemente ao seu anjo.

. . - “Sim... eu sei disso. Sei que fiz os humanos com apenas uma asa...”

. . Intrigado, com a consciência absoluta de seu Senhor, o anjo queria entender e perguntou:

. . - “Mas por que o Senhor deu aos homens apenas uma asa quando são necessárias duas asas para poder voar... para poder ser livre?”

. . Conhecedor que era de todas as respostas, Deus não teve pressa para falar. Comeu outra jabuticaba, obscura e suave. E então respondeu:

. . - “Eles podem voar sim, meu anjo. Dei aos humanos apenas uma asa para que eles pudessem voar mais e melhor que Eu ou vocês meus arcanjos.

. . Para voar, meu amigo, você precisa de suas duas asas. Embora livre, sempre estará sozinho. Talvez da mesma maneira que Eu. Mas os humanos... os humanos, com sua única asa, precisarão sempre dar as mãos para alguém, a fim de terem suas duas asas.

. . Cada um deles tem, na verdade, um par de asas... uma outra asa em algum lugar do mundo que completa o par. Assim, eles aprenderão a respeitar-se, pois ao quebrar a única asa de outra pessoa, podem estar acabando com as suas próprias chances de voar.

. . Assim, meu anjo, eles aprenderão a amar verdadeiramente outra pessoa, aprenderão que, somente permitindo-se amar, eles poderão voar.

. . Tocando a mão de outra pessoa, em um abraço correto e afetuoso, eles poderão encontrar a asa que lhes falta... e poderão finalmente voar.

. . Somente através do amor irão chegar até onde estou... assim como você, meu anjo. E eles nunca... nunca estarão sozinhos quando forem voar."

. . Deus silenciou em seu sorriso. O anjo compreendeu o que não precisava ser dito...."

. .

(Autor desconhecido).

Espero que todos nós na vida encontremos a asa que nos falta para enfim podermos voar.

segunda-feira, maio 31, 2010

sem expressão

mata-me a alma
corta-me a língua
arranca-me os dedos
corroí-me o coração
manda os pássaros bicarem-me os olhos

eu não queria este silencio da falta de expressão
não queria não ter porque escrever
não faz sentido sonhar sem ter com que.
viver sem ter porque.
não há maior vazio do que aquele que nem criativos nos faz ser
maior degredo do que este...
deserto mais denso do que o vazio dos sentidos...

e eu só quero...
só queria ....
poder esvaziar o coração..

esvair-me eu...
tornar-me quem sabe simples chão, para ser lavrado,
lavrado pelo que for, pelo que vier a ser ,
chão de orquídeas ou tulipas,
cravos ou papoilas...
simples restolho...

mas ao menos o principio ou o fim de alguma coisa...

porque tudo em mim é sonho que termina sem raiz...
tanto em mim é vácuo

sexta-feira, maio 21, 2010

HOJE O DIA PAROU

Hoje o dia parou

Eram 03 horas da manha.

Escrevia o vazio num momento pérfido pela inconstância

Gritava a dor cá dentro como se quisesse expurga-la…Torna-la suportável.

Como se a solidão, aquela solidão do vazio dos sonhos e dos afectos pudesse ser contida.

Como se algum dia a vida pudesse ser contida numa folha de papel.

Hoje o dia parou

Sem que parassem os relógios

Sem que os pássaros deixassem de voar

Sem que os mareantes tivessem de temer as tempestades

Sem que ainda, que por um segundo, imperasse qualquer réstia de silencio

Hoje o dia parou

Sem suspiros nem murmúrios

Sem qualquer interjeição fatal improvisada

Sem sequer cair na contramão das linhas dos meus dedos

Sem ousar sequer a contramão das linhas dos meu rumo

Hoje o dia parou

Sem que os elementos se revoltassem

Sem que a chuva ousasse debaldar dos céus

Sem que as gaivotas poisassem nos areais

Sem que os morcegos regressassem aos abrigos

Hoje o dia parou

Sem parar o transito nem abalar horários

Sem atravancar as filas

Sem carregar olhares nem pesar nos ombros

Sem a poeira ou as escorias do cair das lágrimas

Hoje o dia parou

Para nunca mais me conseguir esquecer que não fui senão parado

Para não ter mais de suportar este vazio

Por não conseguir sujeitar mais o coração ao interregno

Para não mais ser eu … o interregno

Hoje o dia parou

para no vácuo não ter de me parar eu

para não sucumbir enregelado

por não conseguir conter a ausência nas entrelinhas

para matar a dor

Hoje o dia parou

para neste texto pausar o crepúsculo

para interromper o corre corre

para tentar derribar a sede

para num gesto parar a cidade

Hoje o dia parou

para que amanhã não parem os teus sonhos

para que os abraços que quiseres não fiquem por dar

para que a tua alma não cesse de sonhar

Hoje o dia parou

para que amanhã possas dizer tudo..

tudo o que ficou por dizer nas entrelinhas

tudo o que ficou no vazio das paginas

todo o bem querer que bem quiseres

todo o sonho porque por direito quiseres pugnar

Hoje o dia parou

para que amanhã possamos ser ombro com ombro unidos

para que saibas perceber os gestos

para que consigas dar valor ao toque

Porque a alegria tem de um dia acontecer


Para que esse dia comece agora

terça-feira, maio 18, 2010

O poeta morre

o poeta morre..

no final de um verso

no vazio das linhas

num interregno da alma

quando o poema deixa de ser sonho

e passa a ser palavra

o poeta morre

quando as cicatrizes

se converterem em chagas

e deixarem de ser marcas de viagem

quando a dor deixar de nos derribar

por já não nos sentirmos cair

o poeta morre

quando o canto deixar de ser sopro

e passar a ser pranto

quando o grito se tornar vácuo

quando a revolta se conformar na apatia

quando nada mais puder doer além da dor

o poeta morre

quando os lábios deixarem de se morder só por querer tocar-se

quando os corpos se esquecerem de gestuar

quando braços e costas deixarem de saber entrelaçar-se

o poeta morre

quando o amor deixar de ser cantado

quando o sonho tiver perdido a memória

por deixar de ser querido

quando a opressão de tão habitual

deixar de revoltar

O poeta morre

quando o pássaro em nós se esquecer de ser Fénix

e não tiver outro remédio além de zarpar da alma

quando os viajantes que somos deixarem de inspirar outras paisagens

o poeta morre

quando nada, mas mesmo nada precisar de ser cantado...

quando a esperança morrer

quando deixar de fazer sentido ser essência

quando o sonho deixar de ser sonhado

o poeta morre

quando a criança que mora nos poetas se tornar um autómato

quando o coração se converter em pedra

quando tudo se desfizer na areia do tempo

e não tivermos nada para cantar além do vazio

e o vazio esse desistir de se encher de palavras

domingo, maio 02, 2010

uma mão aberta

uma mão aberta
no vazio dos sonhos
na alma que fica à espreita
deserta de sentimentos
dois sentires que mal se sentem
braços que jamais se entrelaçarão
saudades do gesto
do teu gesto...
sopros do mundo sem medo do vento
sopros do vento com medo do sonho..

e depois de tudo
só depois de tudo

,.....
esta saudade

sexta-feira, dezembro 11, 2009

vá lá

Vá lá
Mantém a fogueira acesa
Que eu tenho um frio na alma
E dentro de mim há um fogo
Que teima em só se acender quando sorris

Vá lá
Deixa de lado esse silêncio, deixa falar a emoção
Não precisamos de grilhetas nem prisões
Que não há lemas que cheguem aos corações
Se amordaçarmos os sentidos

Vá lá
Dança comigo esta noite
Solta essa música magica que só mora em ti
deixa-me compor-te uma balada
com os acordes da batida do coração

Vá lá
Mata-me a sede do corpo e da alma
Vem ser minha calma, senhora de todos os caminhos
Revira-me o mundo debaixo dos pés
Que eu quero trilhar rumos novos



Vá lá
Atraca-te a mim segura
Que os meus ombros estão ansiosos por ser cais
E os meus braços juraram suportar todos vendavais
Sem medo dos teus cansaços

Vá lá
Faz do meu corpo a tua ilha
Deixa-te adormecer no bater que me vai no coração
E só faz sentido ver a lua a brilhar
Sossegado no horizonte dos teus braços

Vá lá
Dá sentido à minha essência
Que eu estou farto da incongruência de ser barco sem rumo
E mesmo o maior dos sonhadores precisa de um prumo
Para dar cor aos sonhos que escrevo

Vá lá

sexta-feira, setembro 25, 2009

Dentro de Nós

As vezes há dentro de nós
Um querer ir sem rumo
Um não querer ser poema
Um ficarmos sós
Um passo qualquer a cair da linha
Num poço sem fundo

As vezes somos
Bússola sem norte
Heróis despidos dos fatos
Flores de pétalas sem cor
Notas musicais saídas do tom
Braços abertos …sem ter o que abraçar

As vezes somos
Ocasos sem nexo,
nados mortos
Vagabundos da existência
Piratas da abundância
Matadores de sonhos

As vezes somos
Vazios… marasmos…
Perdidos…
sofridos…
Escolhos atirados….
Dos rios da vida

As vezes somos
Náufragos de nós
Sem escutar… o sopro da alma que é a nossa voz…
Sem vermos… o palpitar dos sonhos bem dentro do peito…
Sem lermos…. o turbilhão das letras que mora nos sonhos …
Sem ousar… ir além no mapa.. mais além que o globo
Ir além ….de nós.…

as vezes
despojamo-nos dos sentidos
e somos figurantes de peças perdidas
elos de cristal quebrado
a dar tudo por tudo com o maior afinco…
sem temer morrer no cair do pano

as vezes teimamos…
em não querer sonhar
em não querer sentir
….o aperto no peito
…qualquer coisa renasce em nós
… uma réstia de luz

E não acreditamos
Que é nosso o destino
Que há sonho em nós
Que é hora de zarpar
Que são nossos os pés que trilham os caminhos
Que há um infinito além do olhar…

Por isso hoje este desabar
Por já não querer esconder
Por não temer ver-me derribar
Por não já não querer pensar
Por saber ser acaso além das naus
Buraco sem fundo acordado

Por isso hoje este meu contar
Porque há qualquer coisa a dizer que é hora de partir
Porque é preciso zarpar para não me findar
Porque vos levo a todos nas memórias que guardo no olhar
Sonhos que idealizei e não consegui
Cometas alados a suplicar …Estrelas doces de devir

Porque sei que ainda vou sorrir
Por tudo o que ainda tiver de ser.
Vagabundo saltimbanco por sorrisos
Pirata acrobata com perna de cristal…
Actor louco em busca da ode triunfal
Um nada que se finda e recomeça
Renasce e triunfa num abraço.

Porque sei que onde for Levo comigo
Pedaços de tudo o que já fui,
Lembranças de noites sem dormir
E por maior que seja a dor da ausência
Talvez possa compreender que afinal me achei
nos momentos em que me perdi e em vão me dei

quinta-feira, setembro 03, 2009

O amor .. outra vez o amor... entre o amor e o nada

Andava eu à procura de qualquer coisa no meu blog que expressasse a dificuldade em escrever aqui alguma coisa (por força do vazio que me leva a capacidade de me expressar), quando fui visitado por Memória de Elefante, e sem que a própria pessoa que me visitou o soubesse, pude através dela descobrir mais um poeta genial brasileiro.
Refiro-me a João Cabral de Melo Neto.
Porque este espaço é também um espaço de reconhecimento e de partilha deixo o poema mais belo que encontrei desse poeta, com um agradecimento aos que me visitam por sonharem e a esperança de que gostem do que vos trouxe...
até porque o poema é fenomenal...
bem hajam
Os Três Mal-Amados
O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.
O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.
O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.
Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.
O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.
O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.
O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.
O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.
O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.
João Cabral de Melo Neto

sábado, agosto 22, 2009

não queria sentir...

não queria sentir o que sinto...
porque não ando a sentir nada...
porque pareço anestesiado...
porque quase nada me da prazer...
porque me começo a conformar com este vazio...
porque começo a duvidar se faz sentido continuar à procura do que busco...
porque sei que se encontar vou estragar tudo...

porque gostava de ser ermita...

gostava de não me corroer por dentro...

porque já nem corroer-me por dentro me doi